A guerra na Síria abrange conflitos locais, regionais e geopolíticos. Esse acumulo de propósitos, torna difícil a compreensão e impossível a conciliação

Os conflitos de natureza local são liderados por diversas facções, majoritariamente islâmicas, contrárias aos grupos e milícias favoráveis o governo Sírio. Entre estes grupos estão o Exército Sírio, a Guarda Revolucionária do Irã e o Grupo Armado Hizbollah do Líbano.

No âmbito regional, a Síria é palco da “guerra fria” entre os muçulmanos xiitas do Irã e os muçulmanos sunitas da Arábia Saudita. Neste sentido, o conflito na Síria se tornou uma guerra indireta, entre sauditas e iranianos, pela hegemonia no Oriente Médio.

Em termos geopolíticos a Síria é a terra escolhida para mais um espetáculo de barbárie protagonizado pela Rússia. São inúmeras as razões, políticas e econômicas, que colocam o país a favor da permanência do estado de guerra na região, com ou sem o presidente Bashar al-Assad, entre estas:

1. Inviabilizar a construção dos gasodutos Irã-Iraque-Síria e do Qatar. Ambos têm como finalidade, limitar a dependência da União Europeia, com relação ao gás da Rússia.
Proteger a base Naval de Tartus, (a única base militar russa com acesso ao Mediterrâneo), e a base aérea de Latakia.

2. Utilizar a  Síria como “moeda de troca” em um processo de negociação das sanções econômicas impostas a Rússia, após intervenção militar na Ucrânia.

3. Manter o ritmo bilionário de venda de armas para a Síria e ratificar sua posição de maior fornecedor de armas do mundo. Damasco é o sétimo maior comprador de armamentos da Rússia.

4. Impedir o avanço dos grupos islâmicos independentes e a ameaça que os mesmos representam ao território russo.

Tudo isso está acontecendo no momento em que, a estabilidade do Oriente Médio, parece não ser um fator relevante para os Estados Unidos.

A relutância do governo norte-americano em interferir na guerra civil da Síria seria impensável, no final do século XX. Época na qual, qualquer perturbação na região, assumiria uma grande significância política para Washington.

A introdução do óleo de xisto nos Estados Unidos reduziu de forma expressiva a possibilidade de que instabilidades no Oriente Médio, possam impactar o crescimento sustentado nos Estados Unidos, e consequentemente o interesse estratégico sobre a região.

A depender deste contexto,  o fim do genocídio sírio depende mais da comoção em torno das imagens de crianças soterradas, do que a clemência dos políticos ou da força de organizações intergovernamentais.


“Talvez daí é que venha sua repugnância por todo extremismo. Os extremos delimitam a fronteira além da qual a vida termina, e a paixão pelo extremismo, em arte como em política, é desejo de morte disfarçada.” _ Milan Kundera.

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